Mãe pode tudo?
Até estar na linha de frente?
A reflexão do Mês
Há algum tempo, eu estava lendo Um teto todo seu de Virginia Woolf e encontrei um parágrafo que chamou minha atenção. Nele, Woolf imagina que talvez chegue um tempo em que as mulheres não sejam mais um gênero protegido, um tempo em que todas possam participar de todas as atividades e profissões que antigamente lhes foram proibidas. Woolf escreve: “tudo poderá acontecer quando ser uma mulher não significará mais exercer uma função protegida”. Mas o que é esse “tudo” de que Woolf fala?

Esse “tudo” é o efeito da liberdade, ele anuncia uma vida mais vasta. Uma vida talvez mais interessante, mais aventureira e também mais arriscada. Nesse sentido, quando ser mulher deixa de ser sinônimo de proteção, a existência se intensifica.
Hoje, ser mulher já não é mais ocupar um lugar resguardado. Mas o que acontece quando a mulher, que exerce uma profissão arriscada e exposta, também é mãe? Porque há um fato incontornável: ao colocar filhos no mundo, as mulheres passam a responder não apenas por si, e sim pelos outros. A maternidade implica proteger. Então o que acontece quando quem está encarregada de proteger escolhe, ainda assim, se expor?
Foi a partir dessa observação que nasceu a série especial da Onda, Mães na Linha de Frente, que traz uma pergunta: mãe pode tudo? Até estar na linha de frente? Ao longo do mês de janeiro, vamos ouvir mulheres que exercem profissões historicamente masculinas e fisicamente exigentes. São trabalhos perigosos, muitas vezes longe de casa: Fernanda é caminhoneira e passa meses na estrada; Rayssa é petroleira embarcada e vive semanas em alto-mar; Thiciane é delegada e comanda operações em Belém; Fabíola é repórter policial em São Paulo e cobre feminicídios semana após semana; Denise é repórter de guerra e se afastou do front ao engravidar.
Depois de gravar com elas, fiquei me perguntando o que essas mães têm em comum.
Num repertório todo woolfiano, eu diria que elas compartilham o senso de liberdade e a coragem da ação. Essas mulheres têm gosto pela aventura e um desejo de ver o mundo.
Há também a questão do dinheiro e da independência. Ganhar o próprio sustento, garantir autonomia material para poder escolher e não depender. Isso importa.
Woolf escreve que, para poder criar, uma mulher precisa de duas coisas: dinheiro e um quarto próprio. A ideia é que o ato criativo exige uma certa serenidade financeira, temporal e espacial. E o quarto, condição dessa liberdade intelectual, é o lugar que permite escapar, ainda que por instantes, às exigências da vida cotidiana e deixar que a imaginação, o pensamento e a escrita se desenvolvam.
Talvez possamos estender essa ideia. Dinheiro e um espaço próprio não são apenas condições da criação intelectual, mas da própria ação livre das mulheres. Seja num quarto silencioso, num caminhão de 17 metros, numa plataforma em alto-mar ou numa zona de conflito, o quarto muda de forma, mas a sua função permanece.
Dinheiro e um quarto seu fazem com que a mulher não ceda sobre o seu desejo, ou seja, não se afaste da sua essência.
Toda liberdade implica uma forma de risco. Não há abertura ao mundo sem exposição.
Então, mãe pode tudo?
Se Thiciane, Rayssa, Fabíola, Fernanda e Denise mostram que podem sustentar escolhas próprias, elas não o fazem sozinhas. A liberdade materna não existe sem uma rede, sem um entorno com quem dividir os cuidados da casa e dos filhos.
Quando leio o convite de Virginia Woolf a criar, penso na Onda, como um espaço de escuta onde mulheres possam se sentir livres para falar e pensar as suas mais íntimas experiências. E se, às vezes, o quarto fosse coletivo?
A série de janeiro trata da exposição ao risco físico. Mas, inspirada por Virginia Woolf, não poderíamos deixar de considerar a criação artística, que também é uma forma de linha de frente. Escrever é um risco. Por isso, conversamos com a escritora, tradutora e editora Sofia Mariutti sobre seu processo de escrita, sobre o que é hoje o seu “quarto próprio” e sobre como se mantém um espaço de criação quando se é mãe de duas meninas pequenas.
Em 1929, Woolf escrevia para lembrar às mulheres que o risco da criação vale a pena. Talvez possamos desejar que, em 2026, cada mulher encontre a coragem de procurar o seu próprio quarto.
Por Octavie Laroque
A entrevista do Mês
Virginia Woolf afirma que, para criar, uma mulher precisa de ”um quarto todo seu”, ou seja, de espaço e tempo, e também de autonomia financeira. Como você construiu o seu ”quarto”?
Eu diria que meu quarto segue em construção, não sei se um dia essa obra acaba… Construí umas paredes quando pedi demissão de um emprego, uns 10 anos atrás. De lá pra cá foi uma década bem produtiva. Fiquei trancada em casa com a pandemia, e tinha a maternidade, algumas traduções, um mestrado… muita leitura e solidão, às vezes duro, mas produtivo. Ano passado, eu mesma me empreguei de novo e agora as paredes que construí estão cobertas de limo, teias de aranha, a vegetação tomou conta de tudo. Aí sim é que o quarto todo seu é posto à prova. Acho que não são tanto as crianças, não é a vida doméstica, é o trabalho assalariado que invade nosso teto. Mas acho que são fases, né? E isso que falo de um lugar de extremo privilégio.
A maternidade é feita de interrupções, enquanto a escrita exige um tempo contínuo. Na sua rotina, como você concilia essas duas temporalidades? O que aconteceu com o seu ”quarto” quando você se tornou mãe?
Tudo aconteceu meio junto, construir o quarto e a maternidade. A maternidade me inspirou e inspira muito, minha filha me tornou leitora assídua e autora de livros para infância. A poesia se abriu para os processos de aquisição da linguagem. Foram e são os momentos mais valiosos da minha vida.
Claro que ainda não pratico a escrita autoral de fôlego, o máximo que escrevi foram ensaios de 10, 15 páginas. Em geral, eles vêm de uma vez, numa madrugada, num dia em que estou viajando sozinha, e depois passam por semanas e semanas de polimento, quase sempre à noite, quando a casa fica em silêncio e o trabalho também. Mas é cada vez mais difícil ficar acordada até tarde, porque no dia seguinte não consigo tirar a manhã.
Acho que é ambíguo, a maternidade é fértil e torna a gente mais eficiente, mas também são demandas infinitas para conciliar com outras demandas infinitas. O quarto está em construção…
A maternidade aparece como tema indireto no seu trabalho. Ser mãe mudou a forma como você observa o mundo e escreve?
Completamente. Sempre gostei da linguagem mais simples, flertando com a ingenuidade. Meu primeiro poeta é o Manuel Bandeira, com sua lagarta listrada, seu porquinho-da-Índia, sua noite de São João.
Mas viver a infância de perto radicalizou isso, a vontade de ser entendida por qualquer pessoa, de ter uma escrita mais cristalina.
Também comecei a notar como as crianças são seres poéticos, que criam metáforas o tempo todo - a metáfora é constitutiva da linguagem, tão inata quanto a linguagem. Comecei a ter sonhos cheios de imagens, sonhar com as minhas filhas como lagartas, ter sonhos também com orcas, jacarés, escorpiões, a reviver medos ancestrais, e tudo isso entrou na minha poesia. A maternidade expandiu minha imaginação e me deixou mais generosa com os processos e com o erro, me deixou mais confiante quando escrevo.
A ideia de que a ”mãe dá conta de tudo” é bastante difundida socialmente. Na sua experiência, essa expectativa corresponde a um reconhecimento ou a uma pressão?
Uma pressão gigantesca, e muito pouco reconhecimento. A mãe é um pouco como a tradutora, só é notada quando falha. Ninguém vê a barra imensa que a gente está segurando quando as coisas dão certo.
Eu amo ser mãe e me sinto superpoderosa ao acolher minhas filhas e ser sensível aos seus humores como a nada mais no mundo. Mas eu falho muito, falto muito, e detesto que o mundo não esteja preparado para isso.
Acho que o primeiro passo é ter um olhar mais amoroso e libertador consigo mesma, não deixar essa pressão tomar conta de tudo. E claro, a criação dos filhos precisa ser amparada, reconhecida e remunerada por ser o trabalho fundamental que é para a sociedade como um todo.
Marcos na conquista de direitos das mulheres
No Brasil, a liberdade feminina e os direitos das mães hoje dependem mais de fatores sociais do que da lei, já que homens e mulheres são iguais perante a Constituição de 1988.
Ao longo da história, esses direitos foram conquistados com muita luta.
1887
No final do século XIX, Rita Lobato Velho Lopes (1867-1954), a primeira mulher a se graduar no ensino superior do país, recebeu seu diploma pela Faculdade de Medicina da Bahia.
1928
Alzira Soriano, a primeira mulher a concorrer uma disputa eleitoral, vence a eleição. Ela concorre ao cargo de prefeita da cidade de Lajes (RN), e vence com 60% dos votos, apesar de campanha misógina a seu respeito. Alzira é a primeira mulher a assumir cargo público não só no Brasil, mas na América Latina.
1932
Em 24 de fevereiro, as mulheres brasileiras conquistaram o direito facultativo ao voto, posteriormente consolidado pela Constituição de 1934. Em 1965, o voto feminino tornou-se obrigatório, como permanece até hoje. Além disso, a mudança eleitoral de fevereiro de 1932 veio acompanhada com a permissão a mulheres de concorrer a cargos públicos. Alzira o fez quatro anos antes usufruindo de permissões regionais.
No mundo, o voto feminino começa a ser adotado na primeira metade do século XX; contudo, o tema já era discutido desde a Revolução Francesa. Em 1791, Olympe de Gouges publicou a Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã. Ainda assim, a França só aprovou o voto feminino em 1944.
1962
Em 27 de agosto, foi aprovado o Estatuto da Mulher Casada. O estatuto promoveu diversas alterações no Código Civil de 1916 e, entre suas principais conquistas, pôs fim à chamada “incapacidade civil” feminina, permitindo à mulher trabalhar sem autorização do marido, receber herança, comprar e vender imóveis, entre outros avanços.
1988
Nos anos seguintes à Ditadura Militar brasileira, foi promulgada a chamada “Constituição Cidadã”, que garantiu a igualdade perante a lei entre homens e mulheres. Esse respaldo possibilitou a aprovação de legislações posteriores, como a Lei Maria da Penha, voltadas à proteção das mulheres contra a discriminação e a violência.
Ainda na Constituição de 1988, o artigo 226 assegura “o direito de decidir livremente e responsavelmente sobre o número, o espaçamento e a oportunidade de ter filhos”. Apesar disso, o direito à interrupção voluntária da gravidez no Brasil ainda não é plenamente assegurado por lei. Na vanguarda desse debate, a França garantiu esse direito em nível constitucional em 2024.
Finalmente, a licença-maternidade, instituída formalmente em 1943, foi ampliada para 120 dias na Constituição de 1988.
2010
A eleição de Dilma Rousseff em 2010 foi um marco histórico ao levar, pela primeira vez, uma mulher ao mais alto cargo do Poder Executivo no Brasil, embora o país não tenha sido o primeiro da região a fazê-lo.
O que fazer em Janeiro?
🍿 Lee, de Ellen Kuras
O drama biográfico retrata a história de Lee Miller. O filme é baseado no livro The Lives of Lee Miller, escrito por Antony Penrose, seu filho. Em uma época em que as mulheres não gozavam dos direitos nem da liberdade de que dispõem hoje, Lee construiu uma carreira como modelo e foi estudar fotografia em Paris. Com a eclosão da Segunda Guerra Mundial, tornou-se correspondente da Vogue e uma das primeiras fotojornalistas a documentar os campos de concentração nazistas.
🎥 Workin’ Moms, CBC
A série canadense, exibida originalmente pela CBC e disponível no Brasil pela Netflix, acompanha quatro mulheres que, ao fim da licença-maternidade, enfrentam de forma humorística os desafios de conciliar trabalho, maternidade e vida pessoal.
📚 Abrir a Boca da Cobra, de Sofia Mariutti & Casa de Bonecas, de Henrik Ibsen
Publicado pela editora Fósforo, a coletânea de poemas Abrir a Boca da Cobra, da nossa entrevistada do mês, mistura o familiar e o inquietante, explorando transformações, memórias e a intimidade com o estranho através de imagens de feras, pessoas e animais.
Em Casa de Bonecas, Ibsen, escritor norueguês do século XIX, denuncia a opressão das mulheres e as restrições impostas pela sociedade burguesa europeia. Publicada em 1879, a peça gerou grande polêmica por tratar da emancipação feminina e da crítica às normas sociais.
🏞️ Casa Cosmos - Vila Madalena, SP
Para moradores de São Paulo e visitantes durante as férias escolares, a Casa Cosmos — livraria infantil com uma coleção diversa de livros e atividades — é uma ótima opção. Entre 14 e 17 de janeiro, das 11h às 16h, haverá um ateliê de férias.
Eles estão na Rua Natingui, 544.


